Capricho nos mínimos detalhes
Fala-se muito nos chamados filmes feitos com pequenas mídias digitais. Desde que iniciamos os nossos trabalhos aqui em Muqui, nunca gravamos algum filme, peça ou curta metragem com alguma filmadora de grande porte. Além de não possuirmos este recurso, acreditamos que o trabalho fica muito mais fácil de fazer se o suporte de gravação for o menor possível.
Os filmes feitos com câmera digital ficam muito bons e a população da cidade vibra quando assiste a algum filme nosso. Muitos, até, nem acreditam que o filme foi gravado com uma simples câmera digital, que qualquer um tem, guarda no bolso da calça ou na bolsa.
O que a gente mais preza é a produção. Quando se trata de filmes ficcionais, principalmente, o que a gente logo pensa é na produção que deve ser bem caprichada. Não é porque a gente não tem câmeras hollywoodianas que vamos deixar o resto a desejar. Cuidamos dos objetos de cena, contatamos as pessoas, trabalhamos a interpretação, vamos atrás do que for preciso para que a cena fique a mais perfeita possível.
O filme pode ser gravado em câmera digital ou celular, mas procuramos caprichar nos detalhes para que a história pareça cada vez mais real, envolvente, cheia de contornos, que transmita emoção, que inspire.
Podem surgir perguntas do tipo: O que adianta uma produção dessas se tudo vai ser gravado em uma camerazinha digital? Será que vale a pena?
Eis aí o barato de tudo, meus caros!É claro que vale a pena. Nosso trabalho é desafiar-nos a cada trabalho, termos experiência sempre. O que mais nos interessa é o aprendizado com as nossas próprias agendas de produção, aprender a rotina de gravação de um filme, mesmo que este seja gravado com um simples celular. As pessoas precisam entender que, o que precisamos, não são mega estúdios, gruas, tripés, mas criatividade, força de vontade, amor no coração, tesão por arte, por audiovisual.
E é com esse amor e entusiasmo que estamos gravando “A Herança Maldita”. Trata-se de uma trama de época, que atravessa várias fases. Apresentamos a neta ainda criança, com a avó na década de 20, e depois apresentamos a avó e a neta passados mais de 20 anos. A pesquisa, embora rápida (por causa do pouco tempo que há), foi feita com zelo e cuidado. Produzimos uma pasta com figuras de cabelos, trajes. Procuramos bazares e pessoas que poderiam nos ajudar nas roupas de acordo com o pesquisado. O sitio histórico da cidade contribuiu (e muito!) para o desenvolvimento da história. Alguns casarões da cidade de Muqui dão a idéia de abandono e serão o pano de fundo para nossas realizações.
O que a gente quer é passar a idéia de passado. Queremos que as pessoas, ao assistirem o nosso vídeo, entre num túnel do tempo, penetre no universo das duas protagonistas da lenda. A nossa intenção é emocionar, é mostrar no que, de fato, somos capazes.
Entrevista com o diretor
“Não é porque o curta “A Herança maldita” é gravado com câmera digital que vamos deixar de nos preocupar com a produção, com os detalhes das cenas. Precisamos superar os limites, as dificuldades e nos surpreender, emocionar o público, inspirar”.QUEM É: Natural de Muqui, interior do Espírito Santo, Leonardo Alves é graduando em jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto. Tem 19 anos e participou em 2008, da oficina de produção e vídeo "Geração Futura" do Canal Futura, no Rio de Janeiro.
Porque recriar e falar de uma história de época?
Quando penso em lendas, logo me vem a mente recortes fotográficos de época, histórias antigas, passadas, contos e causos interessantes. A história de “A Herança Maldita” seria completamente diferente se não tivesse esse ar de época. As roupas dos anos 20 e 40 que utilizamos nas cenas fizeram total diferença. A composição, o contraste...isso tudo fez e está fazendo a diferença. Os objetos de cena utilizados nas gravações nos remontam a um passado cheio de histórias, histórias desconhecidas, mal contadas. È esta a impressão que quero passar. Coisas ocultas, histórias que serão descobertas aos poucos, imagens que despertem a curiosidade, lembranças.
Qual a relação que “A Herança Maldita” estabelece com as lendas?
Total. A história que engendrei narra a história de uma avó riquíssima que cuida de uma neta órfã até morrer. A pobre neta estava iludida, acostumada sempre no luxo se viu de frente para uma situação apavorante: a avó não tinha nada absolutamente. E é aí o epicentro da história. A neta, frustrada pela herança que não recebeu, cai em desgraça num palacete. Suas mazelas vão causar medo na população em volta deste palacete, despertando a curiosidade.
Eu acho que esse é o barato das lendas. Elas despertam curiosidade e mechem com o imaginário popular. Em “A Herança Maldita” mostraremos o lado de dentro, o lado de quem vive a lenda, de quem estimula o imaginário, os bochichos, o medo.
Acho interessante ter esse olhar interno, o olhar sobre aqueles que, de certa forma, foram condicionados a certa situação e viram lenda.
De onde veio a inspiração para a história?
A inspiração veio da minha própria cidade. Queria fugir das lendas já existentes. Tentei criar algo que utilizasse o lado bucólico do cenário da minha cidade natal numa história que fosse fictícia.
O que você acha do festival Cel U Cine?
O festival tem mil possibilidades. É um evento que lhe da a liberdade de trabalhar com qualquer coisa, com qualquer idéia. É claro que há os temas que devem ser respeitados, mas ele possibilita que reinventemos, que utilizemos recursos como fotografia e outros fades modernos, que brinquemos com o irreal, com as histórias desse mundo!
Estou torcendo para que ele seja sempre um sucesso. O conheci esse ano e já sou um fã de carteirinha.